Saideira
Para terminar o ano de 2025
Ontem, num quase ritual, organizei a minha mesa de trabalho. Papéis sem utilidade, cartões de visita de quem mal conheço e até um bilhete de loteria com 11 acertos para trocar por um novo estavam acumulados. Arrumar o local onde editei textos, fiz entrevistas, produzi roteiros e permaneço criando me pareceu um bom desfecho para os últimos 12 meses.
Não vou maldizer 2025, mas tão pouco posso enaltecer um ano em que passei por mais percalços do que imaginava. Eis-me aqui com a ajuda de quem nunca me faltou, com algum remédio que me dê alegria e com o bilhete na loteria na esperança de que números mágicos me levem para o outro lado do mundo.
Para variar, prefiro ficar com um pouco de poesia para atravessar esse trajeto.
Breves são os anos
No breve número de doze meses
O ano passa, e breves são os anos,
Poucos a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
Dos números, e quanto pouco falta
Para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
Que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso, e breve acabo.
Dado em declive deixo, e invito apresso
O moribundo passo.Ricardo Reis - Heterônimo de Fernando Pessoa
A edição está mais enxuta, mas não queria deixar para dizer em 2026 algumas coisinhas que aqui ainda estão…
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Foi muito bom cumprir metas mais gentis comigo e com o mundo neste ano. Li mais, adotei uma gatinha vida loka e fui com medo mesmo em muitas situações.
Não vou conseguir listar melhores do ano pelo simples motivo de que minhas leituras não ficaram só nos lançamentos ou nas obras premiadas, não vi todos os shows, filmes e peças que estiveram ao meu alcance.
Em 2025 o que esteve ao meu alcance, em alguns dias, foi tomar uma cerveja com amigos num bar (e isso é de bom tamanho também).
Outras vezes, só esteve ao meu alcance dormir um pouco mais no domingo.
Como escreveu Virginia Woolf, “esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios - chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) - de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se a senhora Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada indivíduo poderá multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que os seus diversos eus estabelecerem consigo - e alguns são demasiado absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa”.
Playlist de Ano Novo
Minha irmã é a rainha das playlists (é algo de família) e sempre manda uma seleção bacana em momentos festivos. Ela me envioi uma dessas hoje cedo, enquanto muitos corriam na São Silvestre e outros nem sequer haviam despertado. Vou dividir, portanto, meu presente com você.
Saudade
“A maneira de reagir à saudade e à tristeza é ter um coração bom e uma cabeça viva. A saudade e a tristeza não são doenças, ou lapsos, ou intervalos, como se diz nos países do Norte. São verdades, condições, coisas do dia a dia, parecidas com apertar os atacadores dos sapatos. É banalizando-as que as acompanhamos. Um sofrimento não anula outro. Mas acompanha-o. Para isto é preciso inteligência e bondade.
Aquilo que resta são as pequenas alegrias. No contexto de tamanha tristeza e tanta verdade tornam-se grandes, por serem as únicas que há.”Miguel Esteves Cardoso
Fazia anos que eu não passava o Natal com minha mãe e com minha irmã em Belo Horizonte. De fato, foi uma noite feliz. Uma ceia farta na medida, fresca como pedem noites de verão, músicas e brindes. Estava tudo em seu lugar não fosse a notícia do dia 25. Teuda Bara, multiartista, cocriadora do Grupo Galpão nos deixou. Nos deixou também a Teudinha, amiga e vizinha da minha mãe na rua Carangola. A mãe do André e do Admarzinho, a avó da Iara. Alguém cuja gargalhada, certamente, estará na memória de milhares de pessoas como a melhor gargalhada que já ouviram.
Eu assisti ao Galpão pela primeira vez em Romeu e Julieta e a presença dela era magnética. Anos depois e, por incontáveis vezes, entrevistei o grupo. E quis uma dessas generosidades da vida que minha mãe se mudasse para o mesmo prédio onde a Teuda morava. Viraram grandes amigas, como devia ser. Compartilhavam o mesmo amor pela cultura, as mesmas causas políticas, a mesma dose de subversão, entre tantas coisas. Ir para minha cidade natal sem passar na casa da Teuda é algo meio impossível. Eu estive lá, mas Teuda havia partido.
Na parede amarela da sala, iluminada como a atriz, cenas de uma vida que valeu a pena. Cenas que nos comoveram e que arrancaram aplausos pelo mundo afora. Uma luz que vai continuar porque nos lembraremos de suas gargalhadas e do seu abraço, como o da fotografia (da minha mãe e da Teudinha em seus incontáveis abraços).
Cuidem bem dos seus amigos. São os nossos maiores presentes.
Obrigada, literalmente, por tanto, Teuda!
É isso. Que venha 2026 com muitas realizações, saúde e boas leituras para todos nós! Obrigada e nos vemos em breve!




Nesse meu exílio autoimposto, a pausa na escrita correspondeu à pausa na leitura de newsletters, mas tive que vir aqui e deixar meu desejo de que 2026 seja um ano melhor para nós. Que tudo que 2025 levou embora sirva para abrir caminhos e preparar a terra para cultivarmos o nosso melhor. Um beijo!
Tão gostoso ler você! Parece que recebo o abraço de Teuda.